Epic The Musical, uma releitura da Odisseia a partir da perspectiva humana

A “Odisseia” foi escrita no fim do século VIII a.c, sendo uma das obras mais conhecidas de Homero, caracterizada por seu estilo épico e forma poética. A história traz como personagem principal Odisseu e sua trajetória até chegar em Ítaca. Na história original, o narrador é, de certa forma, Telêmaco, que guiado pela deusa Atena, começa a procurar seu pai, Odisseu e dessa forma, descobre os lugares e desafios pelos quais ele passou.

Diferentemente, em “Epic the musical” — Um musical criado pelo porto-riquenho Jorge Rivera-Herrans e lançado primeiramente no tik tok, à partir de 2021, sendo levado em seguida para a plataforma Youtube onde permanece na íntegra —  a história começa com Odisseu, na música “The horse and the Infant” (O cavalo e a criança).

Odisseu é apresentado como influente, um líder, inteligente, estratégico, que sabe como motivar sua equipe, ele faz com que eles se lembrem pelo que estão lutando e cativa a confiança deles através de uma única frase “Do what I say, and you’ll see them — as pessoas amadas — again” (Façam o que eu disser e vocês irão vê-los de novo) e realmente isso funciona. Odisseu consegue se infiltrar na cidade de Tróia, escondido dentro de um cavalo de madeira, um objeto simbólico para os moradores de Tróia, que possuíam como patrono Poseidon, o criador do cavalo.

Achando, então, que o objeto era um presente e um ato de remissão, eles baixaram a guarda e foi aí que Odisseu deu o sinal para atacar. Nesse momento também é apresentado o objeto de desejo de Odisseu e sua motivação, sua esposa, Penélope. Odisseu chega a cantar, com uma voz mais suave, seu nome, indicando amor, rendição e entrega profunda. As frases: “What do you live for? What do you try for? What do you wish for? What do you fight for?” (Pelo o quê você vive? Pelo que você continua? O que você deseja? Pelo que você luta?), indicam o primeiro momento de embate dos personagens, onde cada um se pergunta qual é o nível de importância daquela guerra, porque eles estão lutando.

Os gregos, assim como em diversas outras civilizações, acreditavam que as batalhas poderiam trazer a glória e ressaltar ainda mais a importância de seus nomes. A canção “The horse and the infant” trabalha em cima do dilema dos limites. Até onde você está disposto a ir para alcançar o que quer?

Odisseu é confiante, egocêntrico e se julga capaz de enfrentar quaisquer desafios. Quando encurralado por Zeus, ele responde que não importa quem é o desafio, ele está pronto, e é nessa confiança cega, que Odisseu dá seu primeiro passo em direção ao abismo.

Os Deuses tentam avisar que ele ainda não está pronto, que existem desafios que são pesados demais, mas ele avança e se depara com um dilema que não está pronto para responder. Sua vida vale mais do que a vida de um bebê? Ele tenta lutar contra essa escolha, tenta achar justificativas e soluções, mas as respostas são claras: se aquele bebê viver, ele precisará pagar com a própria vida no futuro, ele implora: “Please, don’t make me do this” (Por favor, não me faça fazer isso), mas a resposta é igualmente cruel: “The blood on your hands is something you won’t lose. All you can choose is whose” (O sangue nas suas mãos é algo que você não vai perder. Tudo que você pode fazer é escolher de quem) e isto é um fato, neste ponto da história, Odisseu já é um assassino, ele já é responsável pelo massacre de centenas de pessoas, mas esse fato não o abala tanto quanto ter que olhar para uma criatura inocente à sua frente e decidir que vai então matá-la. É pelo medo de perder Penélope, seu filho Telêmaco e sua casa, Ítaca, que Odisseu mata o bebê. O medo é o combustível principal desta história, mais do que a racionalidade de Odisseu, representada pela Deus Atena.

A dificuldade da decisão vem do sentimento de Unheimliche — conceito psicanalítico desenvolvido por Sigmund Freud em 1919 e que se refere a sensação de medo provinda de algo que não é totalmente desconhecido, mas de alguma coisa que era familiar e se tornou estranho — ao olhar para aquele bebê, em “Just a man” (Apenas um homem). Odisseu narra sobre como aquela criança, filho do príncipe Hector, a quem ele acabou de matar, o lembra seu próprio filho, Telêmaco, que ele teve que abandonar para poder liderar essa guerra.

Ele hesita, tenta poupar o bebê da dor, tenta se poupar da angústia, afinal, ele é apenas um homem que está longe demais de tudo aquilo que ele conhece, mas é ao olhar-se no espelho que ele faz a pergunta principal desta análise: “But when does the comet become a meteor? When does a candle become a blaze? When does a man become a monster? When does a ripple become a tidal wave? When does the reason become the blame? When does a man become a monster?

(Mas quando um cometa se torna um meteoro? Quando uma vela se torna uma chama? Quando um homem se torna um monstro? Quando a onda se torna um tsunami? Quando a razão se torna a culpa? Quando um homem se torna um monstro?)

Essa é a pergunta que assombra toda a narrativa de epic, perseguindo Odisseu, desde o momento em que ele toma uma decisão sobre o bebê, até o momento em que ele retorna para casa.

Ele termina a música com um apelo de perdão, reforçando que ele é apenas um homem, que ele é falho, que não tem escolha, que existem ações maiores que suas decisões, mas a quem ele está se desculpando? À criança que perdeu sua vida, à Penélope que conheceu um Odisseu que não retornará ou ao público que está acompanhando sua Odisseia?

Seis mil homens estão na jornada de voltar para casa, para Ítaca, para o lugar que eles conhecem, o ponto que eles julgam ser seguros e por isso, não devem ser parados, mas existe um problema. A guerra acabou com seus mantimentos, eles estão em alto mar, estão desesperados e com fome e por isso Euríloco recorre ao capitão, Odisseu, por uma solução e, dessa forma, eles acabam se guiando pelos pássaros que voam pelo céu, até chegar em uma ilha.

Durante essa canção é apresentado o primeiro paralelo entre personagens, Euríloco — cunhado de Odisseu e seu braço direito — e Polites — seu melhor amigo —, ambos disputam pela confiança de Odisseu, ambos tentam ser validados, mas são pessoas completamente opostas. Enquanto Polites é uma pessoa calma, alegre, que tenta ver o mundo com positividade e acreditar na esperança, Euríloco é faminto por reconhecimento e poder. Euríloco tenta trazer Odisseu de volta a razão em alguns momentos da história, mas sua inconsistência não permite que ele seja uma voz confiável dentro da narrativa. Essa mesma inconsistência é demonstrada através da instrumentação que muda de acordo com a música em que Euríloco está presente. Ele não possui um instrumento próprio, porque não possui uma narrativa própria. Ele é como uma sombra, orbitando a história, esperando o momento para se tornar alguém. Momento este que nunca chega. Ele tenta ser o amigo, o inteligente, o confiável, o corajoso e o líder e nenhuma dessas facetas se encaixa no personagem e é por isso que entre os dois, para Odisseu, Polites sempre foi a escolha confiável, não porque ele sempre estivesse certo, mas porque ele era constante e em uma guerra, a constância é mais confiável que o desejo de ser.

Euríloco é a sombra da história, Polites é o fantasma que assombra a narrativa. Ele morre no início da obra, durante a sétima música, mas sua influência continua durante toda a narrativa. Odisseu constantemente se lembra de suas palavras e os homens que o acompanham também sabem da importância de Polites.

Em “Open arms” (Braços abertos), Polites tenta fazer com que Odisseu se solte mais. Odisseu se mostra uma pessoa fechada, que carrega o peso e a culpa sozinho e não deixa que esses desafios “vazem” para seus amigos.  Odisseu tem receio de receber o mundo de “braços abertos” porque ele conhece a maldade, ele sabe o peso das decisões ruins e sabe ainda mais o peso das decisões inevitáveis. Abrir os braços para o mundo é se colocar como vulnerável. Disponível para receber as coisas boas, mas também vulnerável a encarar as coisas ruins.

Odisseu é regido por Atena, deusa da sabedoria. Isso demonstra sua mente racional, a parte que não permite que os sentimentos o atrapalhem. Ele é descrito como astuto, promissor, sábio, conseguindo enganar até mesmo Atena durante a música “Warrior of the mind”, onde a própria deusa narra seu desafio do Javali, onde ela diz que apenas o mais sábio conseguiria encarar o desafio de frente e superar. É nesse momento que a deusa decide observar o jovem mais de perto e pouco depois se torna sua mentora. Em termos físicos, Atena seria a simbologia para a racionalidade pura de Odisseu, seu lado que não se permite sentir, amar, chorar ou sofrer, algo muito além de uma memória fictícia divina.

Durante a obra existem desafios que Odisseu precisa enfrentar para chegar até Ítaca, monstros que são colocados no caminho de sua jornada, sendo eles: Polyphemus, Poseidon, Scylla, Charybdis e finalmente ele mesmo. Cada um desses monstros poderia ser tratado como uma faceta do próprio Odisseu durante a obra, pilares de princípios.

Polyphemus, filho de Poseidon, é um ciclope, ainda bebê, que mora dentro de uma caverna, na ilha ao qual Odisseu e seus homens acabaram de chegar. Sem saber que dentro da caverna haveria um perigo, eles avançam e dentro encontram o que tanto almejam, comida e sem pensar, a pegam, mas é então que o perigo se revela. Odisseu percebe rapidamente, tudo estava perfeito demais, tranquilo demais, se haviam tantas ovelhas disponíveis para serem abatidas, porque os comedores de lótus não haviam se alimentado delas ao invés de ficarem reféns da planta?

Polyphemus surge, a princípio ele apenas está confuso sobre quem são os estranhos em sua caverna, mas ao notar que sua ovelha favorita havia sido morta, ele se torna perigoso, furioso e rancoroso. Ele questiona a Odisseu o que lhe dá o direito de infligir uma dor tão grande: “Don’t you know that pain you sow is pain you reap?” (Você não sabe que a dor que você semeia é a mesma dor que você colhe?), este é o primeiro princípio de Odisseu a ser confrontado. A misericórdia.

Odisseu se vê como uma pessoa misericordiosa nesse ponto da história, alguém que evita dores desnecessárias e por isso, ele tenta argumentar o ciclope, oferecendo uma troca pela dor que causou, ao invés da própria vida, mas esse é o momento em que ele revela sua verdadeira face, a da argilosidade. Assim como Polyphemus, ele sabe argumentar, como manipular uma situação para sair por cima e embora não tivesse motivos aparentes para seu ato ele, além de envenenar o vinho, decide mentir sobre seu próprio nome quando questionado sobre este. Essa decisão vai de confronto com os valores gregos em que o nome era um símbolo de alto prestígio, em equivalentes atuais, um nome naquela época poderia ser visto como um cpf, algo único que o identifica. Mas as coisas não agem como planejado, Polyphemus não se acalma com a troca, mas agradece o gesto, dizendo que pelo bom vinho, “Nobody” (Ninguém) — que nesse caso é Odisseu — será o último homem a morrer.

Ele precisa agir rápido, pensar rápido, ou todos ali acabarão mortos e ele faz questão de lembrar isso aos seus companheiros. Se eles não forem espertos, se não lutarem com vontade, eles morrerão e o restante da tripulação que espera na praia, também irá morrer, seja de fome, seja por comer a lótus — que daria uma morte simbólica, uma vez que a memória seria desligada de seus inconscientes, outro símbolo importante para os gregos — ou pelas mãos de Polyphemus.

Odisseu os relembra, o inimigo é grande, mas também é lerdo, possui muitos pontos cegos e se todos atacarem juntos, eles terão uma chance, principalmente porque Polyphemus parece estar desarmado, mas é o inesperado que faz com que essa luta se torne tão excepcional. A vitória parecia garantida, Polyphemus estava desnorteado, se não fosse pelo fato de ele ter uma clava, que é usada diretamente contra Polites. A morte de seu amigo desestabiliza Odisseu, que para de dar ordens e sem seus comandos, seus homens se encontram perdidos, despreparados para o combate.

Ao cair desacordado pelo vinho, Polyphemus bloqueia a saída. Euríloco é o responsável por trazer Odisseu de volta à realidade, chamando por seu nome repetidas vezes até que ele reaja. É durante a música “Remember Them” (Lembre-se deles) que o segundo pilar da história é apresentado. A memória.

Para a autora Mircea Eliade, durante o livro “Mito e realidade” a análise da memória é um marco importante durante o estudo das mitologias para o desenvolvimento do homem moderno partindo de sociedades pré-históricas:

“Aquele que se recorda de seus “nascimentos” (= origem) e de suas vidas anteriores (durações constituídas por uma série considerável de eventos vividos) consegue libertar-se dos condicionamentos kármicos; em outros termos, ele se converte no senhor de seu destino” (Eliade. 1972, p.66)

É a consciência desses karmas que perseguem Odisseu durante a Odisseia. Ao ignorar Atena, a racionalidade, ele se condena a viver um ciclo cármico de lembranças, ações e consequências.

Atena o confronta no final da música “Remember them”, questionando se ele havia se esquecido das lições que ela o havia ensinado. Deixar o ciclope viver era um erro, ele precisava terminar o trabalho, mas Odisseu se recusou.

Odisseu não foi verdadeiramente misericordioso, ele foi egocêntrico. Ele sabia o que precisava fazer, mas ele queria se manter no controle, saber que aquilo que o havia ferido — Polifemo ao matar Polites — estaria tão machucado quanto. Ele precisava desta justificativa, de que mais uma morte não teria nada a acrescentar, o que seria um argumento válido, se ele não terminasse a canção revelando seu verdadeiro nome. Ele queria que o ciclope sofresse e soubesse o porque ele estava sofrendo, não apenas o porquê, mas também quem o estava machucando. Este é o ponto em que Atena e Odisseu se despedem na obra.

Na visão da Deusa, ele se tornou fraco, imprudente; sentimental na melhor das hipóteses. Ela não possui compaixão, os erros de Odisseu não devem ser perdoados, porque ele é um guerreiro da mente, ou seja, ele luta usando seu cérebro e não há espaço para erros nesse tipo de confronto. É nessa distanciação da racionalidade que Odisseu caminha para a resposta das  perguntas feita durante “Just a man”, para uma coisa se tornar outra, basta que ela seja desviada de seu percurso. Se eles nunca tivessem chegado até aquela ilha, Polites nunca teria morrido, se ele não tivesse morrido, Odisseu não teria atacado Polyphemus, se Polyphemus não existisse na história, Atena não teria ido embora e assim sucessivamente.

“Storm” (Tempestade) começa com uma sucessão de notas que carregam o ritmo do próximo desafio, que surgirá. Lutando contra ondas fortes, Odisseu e sua tripulação temem que os navios não sejam capazes de aguentar. Ele se questiona se a tempestade é natural ou uma interferência divina. Sua casa está próxima, mas o desafio parece forte demais para ser superado, os navios vão afundar, a tripulação sente medo e mesmo a inteligência de Odisseu não pode ir de frente contra as ondas, mas a esperança ressurge quando eles avistam uma ilha flutuante e amarrando-se nela, com a ajuda de arpões, eles conseguem permanecer firmes no mar.

Munido de esperança, Odisseu resolve recorrer a Éolo, deus do vento, para que ele tranque os ventos da tempestade tempo o suficiente para que eles possam chegar em segurança em casa. Éolo aceita, contanto que Odisseu jogue um jogo com ele. Os ventos da tempestade seriam guardados dentro de uma bolsa e tudo que Odisseu precisaria fazer era garantir que a bolsa não seria aberta, uma proposta aparentemente fácil. A facilidade deixa Odisseu desconfiado e este, tentando descobrir o que o Deus poderia ter escondido, pergunta qual o truque ao qual é respondido com “Keep your friends close and your enemies closer” (mantenha seus amigos perto e seus inimigos ainda mais perto), entretanto a dualidade desse conselho se mostra quando ambos residem na mesma pessoa. “Just keep your eyes open” também é uma simbologia para não viver uma vida de sonhos, mas manter os pés no chão, ser racional.

Traído por seus amigos, Odisseu tem a sacola de vento furtada e aberta enquanto ele se encontrava adormecido. Neste ponto da jornada, Odisseu se encontra com outro desafio, Poseidon. Na obra, Poseidon não é uma figura desconhecida para os personagens. Sendo ele um dos patrono da cidade de Tróia, o Deus já possuía um motivo anterior para ter manter uma fúria contra Odisseu e seus homens, mas o que realmente o motivou a ter um embate foi a crueldade contra seu filho, Polyphemus.

Assim como seu filho, Poseidon também representa uma faceta de Odisseu. Se Atena, dentro da obra, é um simbolismo para o lado racional de Odisseu, Poseidon é a representação de seus sentimentos, a fúria, caos, luto e etc. Mas, para além disso, ele também representa a crueldade, a tomada difícil de decisões.

A música “Ruthlessness” expõe o ponto de vista de Poseidon sobre a misericórdia e como ela pode se tornar um ato de fraqueza, esse conceito de a crueldade ser um ato de misericórdia persegue Odisseu até seu confronto final para voltar à Ítaca, onde ele abre mão de sua humanidade para alcançar o que tanto almeja:

“You are the worst kind of good ‘cause you’re not even great”

(Você é o pior tipo de “bem” porque você nem mesmo é bom)

O paralelo entre ser bom, mas não bom o suficiente é um dos dilemas cármicos da obra, onde salvar alguém depende de se perder em alguns momentos e renegar coisas que poderiam vir a ser importantes. Fragilizado, ainda de luto e tendo perdido 557 homens durante o confronto com Poseidon, Odisseu se recusa a encarar a realidade quando Euríloco tenta contar a verdade sobre ter aberto o saco de vento. O ato de fugir da realidade vai contra o processo psicológico de enfrentar seus próprios problemas e se autoconhecer.

“O sofrimento baseia-se e é indefinidamente prolongado no mundo pelo karma, pela temporalidade: é a lei do karma que impõe as inumeráveis transmigrações, esse eterno retorno à existência e, portanto, ao sofrimento. Libertar-se da lei cármica equivale à cura.” (Eliade. 1972, p.63)

Circe, após um breve embate, acaba se mostrando uma aliada de Odisseu e por compaixão, acreditando que o mundo poderia aprender um pouco mais sobre gentileza, ela decide soltar os homens que estavam como reféns em seu palácio e leva Odisseu e sua tripulação até o submundo, para que ele possa se encontrar com Tirésias, um profeta que poderia ter a resposta de como chegar a Ítaca sem ter que enfrentar Poseidon.

Na música “The Underworld”, Odisseu tem seu primeiro momento de catarse, onde ele é levado ao passado de forma imediata.

No livro “Mitos e realidade” a autora trabalha com duas formas de alcançar o “nascimento”, sendo o primeiro a reintegração imediata e o segundo o retorno progressivo à “origem”. Odisseu experimenta as duas em dois momentos diferentes da história.

Durante o submundo, onde a passagem do tempo é diferente e as lembranças do que ele fez se tornam mais “vívidas”, ele é puxado diretamente para esse confronto com a realidade, chegando a ver os homens que morreram pela sua decisão de deixar o ciclope viver. Ele também se depara com o bebê que precisou matar durante a guerra de Tróia, com sua mãe que tirou a própria vida ao achar que o filho havia morrido no mar e com Polites. Polites, nesse ponto, representa o fio de esperança que Odisseu ainda possui, mas existe um certo simbolismo em Odisseu tentar alcançá-lo com sua mão durante a música e não conseguir, por ele se tratar de uma lembrança e não uma realidade. 

Odisseu durante a música “The Underworld” tentando alcançar Polites, imagem retirada do canal “Yendrow”

A escolha de ambiente para ter essa reflexão também não é ao acaso. Na mitologia grega, Hipnos e Tanatos, representam o sono e a morte, ambos estados de inconsciência do ser e ambos carregam o simbolismo do despertar. Acreditava-se que o rio Letes, o rio do “esquecimento”, pertencia ao submundo, sendo assim, esquecer e morrer poderiam ter o mesmo sentido, mas a constância de Odisseu de seguir em frente ao invés de permanecer no submundo é o que traz à tona essa catarse.

“Prescreve-se à alma que não se aproxime da fonte do Letes pelo caminho da esquerda, mas que tome, pela direita, o caminho onde encontrará a nascente que sai do lago  de Mnemósine” (Eliade. 1972, p.88)

Em “Monster”, Odisseu se questiona se os monstros que ele encontrou pelo caminho também sentem culpa, se eles possuem dificuldade para dormir durante a noite ou se a certeza de suas ações os fazem ficar tranquilos. Movido pela profecia de Tirésias, Odisseu decide se tornar um monstro, se isso o levar para casa. Ele decide abandonar seus ideais e princípios se isso for o suficiente para que ele se encontre com Penélope novamente.

Durante a jornada, é vendido a ideia de que Odisseu é um herói trágico, mas existe outro ponto de vista dessa obra, em que Odisseu não é um herói, mas o monstro de sua própria narrativa. A motivação por trás de suas ações é o que garante que ele seja aplaudido pelos espectadores, afinal, por amor, tudo é permitido e o fato de ser uma tragédia grega ameniza o impacto de suas ações, porque é uma realidade muito distante da atualidade. Os atos deixam de ser reais e se tornam ficcionais, mundanos. Estamos vendo o lado dele, não o lado de uma das viúvas, muito menos o lado dos troianos.

A primeira vez que o público é confrontado com a mudança de Odisseu e sua tomada de decisão de ser um monstro é durante a canção das sereias, onde ele as engana, descobre um caminho para voltar para Ítaca e então as mata, sem piedade. Ainda é possível ver humanidade em suas ações, como o breve momento em que ele hesita ao saber que teria que passar pela Scylla e sacrificar seis de seus homens para continuar em segurança, porém, diferente do que acontece em “Just a man” Odisseu não tenta lutar contra esse fato e faz sua escolha muito mais rapidamente.

A scylla canta sobre o quanto eles são parecidos, sobre como lá no fundo (deep down) eles escondem um motivo para ter vergonha. Ela se comunica telepaticamente com Odisseu e conhece seu plano antes mesmo que seus homens possam saber. Euríloco, tendo finalmente encontrado um momento para confessar seus pecados, revela que ele abriu o saco quando Odisseu estava desacordado. O antigo Odisseu teria confrontado ele, teria tentado racionalizar seus sentimentos, mas esse Odisseu apenas toma uma decisão que demonstra perfeitamente como ele internalizou as palavras de Poseidon, de que a crueldade também é um ato de misericórdia a si próprio.

É Euríloco quem ordena que seis pessoas acendam uma tocha, mas ele o faz porque Odisseu o ordena a fazer. Euríloco não sabia do plano, mas por essa ação ele possui nas mãos o sangue de seis de seus amigos, assim como pela ação de Euríloco, Odisseu possui o sangue de 564 companheiros. É um ato de reciprocidade e vingança silenciosa.

“There is not price we won’t pay” (Não existe um preço que não paguemos), a Scylla canta enquanto Euríloco se desculpa por seus erros, mas ela não fala com ele, ela fala com Odisseu, sobre as semelhanças entre os dois, sobre seus pecados, erros e decisões, sobre as mentiras que cada um esconde e a forma como essa música termina é o ponto máximo de percepção dessa ligação. “We are the same, you and I” (Nós somos iguais, você e eu), uma resposta de cumplicidade e entendimento mútuo, naquele momento, Odisseu já era um monstro, naquele momento ele já havia alcançado a sensação de Unheimliche diante do público. Quem está assistindo a obra deveria temê-lo, desprezar suas atitudes, não ser capaz de reconhecer Odisseu como Odisseu.

Após o sacrifício, quando cruzam Scylla, Eurícolo confronta Odisseu, contradizendo seus próprios atos, alegando que Odisseu foi cruel ao sacrificar seis de seus amigos, mas ele mesmo sugeriu fazer a mesma coisa quando estavam na ilha de Circe. É possível analisar a tentativa de Euríloco de tomar o poder através dos instrumentos. Durante o duelo contra Odisseu em “Mutiny” (Mutin) seu instrumento é uma guitarra elétrica, o mesmo que de Odisseu, afinal, esse é o momento em que ele tenta se tornar o que Odisseu foi. Por esse confronto, um mutin se forma e Odisseu se encontra ferido e desacordado, a melodia que toca quando ele acorda é a mesma que toca no ínicio de “keep your friends close” destacando ainda mais a falta de voz própria de Euríloco. Ele tenta ser Odisseu, mas em sua primeira tentativa ele acaba atraindo a presença de Zeus ao matar uma vaca sagrada e consequentemente, acaba se matando junto. Zeus ofereceu uma escolha a Odisseu, morrer ou deixar que seus amigos morressem, a esse ponto todos já sabem qual seria a resposta e poucos realmente o culpariam por essa decisão.

“I have to see her” (Eu tenho que vê-la), ele se refere a Penélope.

“But we’ll die” (Mas nós vamos morrer”, Euríloco sussurra.

“I know” (Eu sei), não existe hesitação, medo ou remorso, apenas uma aceitação fria do fato.

O segundo momento de catarse de Odisseu começa quando ele acorda na ilha de Calipso que acredita que ele é o amor de sua vida, afinal, ele é tudo que ela já conheceu. Essa catarse é mais lenta, um momento de reflexão profunda, onde ele passou sete anos preso com Calipso desejando voltar para casa, voltar para o conhecido, retornar para Penélope.

“No segundo caso, o do retorno progressivo à origem, encontramo-nos perante uma comemoração meticulosa e exaustiva dos eventos pessoais e históricos. Certamente, também nesses casos, o objetivo último consiste em “queimar essas recordações, em aboli-las de alguma forma ao revivê-las” (Eliade. 1972, p.65)

A partir do minuto 2:29 da música “Love in paradise” (Amor no paraíso), Odisseu se reconecta com seu passado, ele deixa que as lembranças venham por completo até ele e clama pela única coisa que poderia salvá-lo de seus próprios sentimentos, a razão. Em outras palavras, Atena. Enquanto Odisseu enfrenta seu momento de catarse, Telêmaco cresce em meio a estranhos dentro da própria casa.

Telêmaco representa a juventude, a ingenuidade e, de certa forma, o passado de seu próprio pai, mesmo que nunca tenha chegado a o conhecer. Ele é ambicioso, corajoso e anseia por um desafio, mas ao mesmo tempo, ele também é inseguro, questionador e vive esperando pelo dia em que os pretendentes vão se rebelar. Esses rostos são mais conhecidos para ele do que o rosto de seu próprio pai e neste caso, reconhecimento não significa pertencimento, compreensão, afeto ou empatia. Para alguns, pode parecer que seu primeiro ato de coragem de Telêmaco só surgiu quando Atena foi intervir por ele contra Antinous, mas o primeiro ato explícito de coragem de Telêmaco foi justamente o que o colocou nesse confronto. A coragem sem a inteligência é apenas uma força que será vencida e é nesse detalhe que reside a importância da deusa.

Saído da ilha de Circe, ajudado por Hermes, Odisseu navega em direção à Ítaca e acredita que o desafio final a ser superado é Charybdis, uma criatura aquática que suga tudo ao seu redor, mas o verdadeiro monstro a ser enfrentado ainda é Poseidon, que aguardou durante anos, o momento em que Odisseu cruzaria seu caminho para voltar para Ítaca. Odisseu tenta uma última vez dissuadir Poseidon, apelar pela piedade, mas, vendo que isso não funcionaria, ele decide obrigar que o Deus do mar o deixe em paz.

Durante essa briga, ao se ver derrotado, Poseidon questiona como Odisseu conseguirá dormir a noite depois de tudo que ele fez, o mesmo questionamento que Odisseu teve ao sair do submundo, porém, agora ele já tem uma resposta.

Tendo superado todos os desafios e estando finalmente de volta em casa, Odisseu entra em seu palácio, o encontrando cheio de pretendentes, escutando sobre o que eles planejam para entrar no quarto da rainha, Penélope, e então ele se esconde no meio deles. Ele estuda seus adversários, esconde suas armas e no momento certo, mata Antinous.

Odisseu e Antinous são dois lados diferentes da mesma moeda, ou dois rios em momentos diferentes, não pelos princípios e valores, mas pelas atitudes. Ambos cometem feitos desagradáveis, ambos são ambiciosos, ambos são vilões, ambos são egocêntricos, mas apenas um sofreu as consequências das próprias ações e continuou a ir em frente. Odisseu só é aclamado pelo motivo de sua Odisseia, não pelo o que ele fez. Se não fosse por amor, ele seria mesmo tão amado?

Ele é tratado, pelos pretendentes, como desconhecido, uma lenda, algo perigoso. Os termos que usam para se referir a ele, como “antigo rei” ou “arqueiro” demonstram o desconhecimento acerca de seu inimigo.

Epic deixa claro que esse é o momento em que Odisseu se torna de fato um monstro, o momento em que a humanidade deixa de existir dentro de seu corpo e isso é expresso desde o nome da música “Odisseu” — padrão adotado pela obra que consiste em nomear as músicas dos monstros pelo próprio nome dos monstros — até os versos da canção.

A verdadeira questão de Epic não deveria ser sobre quando um homem se torna um monstro, mas até onde você pode ir na linha da moralidade antes de atravessá-la por completo?

Circe oferece sua ajuda porque acreditava na bondade, “The world does not tend to forgive”(Este mundo não tende a perdoar), é o paralelo da relação dos dois. Circe libertou Odisseu e seus homens porque acreditava que o mundo poderia aprender mais sobre compaixão, mas o próprio Odisseu perde esse ensinamento ao longo da história. Ele fala isso para Atena, ao final da música que ele canta com seu filho. “If that world exists, it’s far away from here” (Se esse mundo existe, ele está longe daqui), ele não nega a existência da compaixão, apenas não a reconhece mais como realidade.

Odisseu volta para casa, ele completa sua jornada, mas existem tantas mudanças durante o caminho, que o lar que um dia ele conheceu, já não existe mais. Vinte anos se passaram, seu filho que era um bebê quando ele partiu, agora já é um homem. Sua esposa que ele deixou para trás, agora é uma mulher que passou vinte anos tentando ganhar tempo, na esperança de que um dia ele voltaria. Mesmo Odisseu não se reconhece mais, ele não se julga mais digno de amor e reconhece não ser o mesmo homem gentil e amável pelo qual Penélope um dia se apaixonou, entretanto, mesmo diferente, mesmo após tantos anos, ele ainda clama por amor, pertencimento e compreensão, a mesma coisa que ele buscava quando Epic se iniciou.

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