Meu pai nunca usou a palavra “alavancagem”. Mas entendia de limite como poucos.
Ele dizia, com um orgulho quase silencioso, que todo o estoque da pequena loja era dele.
Que, se não vendesse nada naquele mês, também não devia nada a ninguém.
Cresci achando aquilo nobre. E, por muito tempo, achei também que era pequeno, pensamento de quem não quer arriscar para alavancar seu negócio.
Vínhamos de cidade do interior, onde nome limpo não era detalhe, era patrimônio, era nosso maior bem. A palavra valia mais que contrato e onde dever era mais do que uma condição financeira, era quase uma falha de caráter.
O tempo passou, eu vim trabalhar com negócios e o mercado que encontrei era outro.
Descobri que crescer, muitas vezes, significa vender antes de ter, expandir com dinheiro de terceiros e trocar segurança por velocidade.
Aprendi sobre alavancagem.
Sobre rolagem de dívida.
Sobre crescer no risco.
E, por um tempo, isso fez mais sentido do que tudo o que eu tinha aprendido em casa.
Afinal, são esses os nomes que aparecem, são esses os empresários que viram referência e as grandes empresas que escalam.
Até que o ciclo vira.
Casos recentes envolvendo o Banco Master, nomes como Daniel Vorcaro e discussões recorrentes sobre estruturas de capital de grandes grupos como a CSN trouxeram de volta uma pergunta antiga, com uma nova dimensão: quanto desse risco é, de fato, individual?
Porque, quando estruturas muito alavancadas começam a falhar, o impacto dificilmente para em quem tomou a decisão.
Ele se espalha. Alcança credores, mercado, confiança.
E, em algum nível, todos nós.
E isto não é um fenômeno novo. A trajetória de Eike Batista já mostrou que crescimento acelerado, quando perde o limite, cobra um preço alto, ainda que nem sempre igualmente distribuído.
Foi aí que a lembrança do meu pai voltou. Não como resistência ao crescimento.
Mas como um tipo de consciência que o mercado sofisticou… e talvez tenha perdido.
Ele nunca venderia algo que não era dele.
Não por falta de ambição, mas por entender que existe um ponto em que o risco deixa de ser escolha e passa a ser transferência.
Hoje, eu não acho mais que ele pensava pequeno, ele entendia algo grande demais para precisar de nome técnico.
No fim, a dúvida não é sobre ousar. É sobre limite.
Porque crescer pode ser estratégia, mas ultrapassar certos limites, quase sempre vira conta.
E alguém sempre paga.




