No coração de Belo Horizonte, entre corredores e histórias que se cruzam no Conjunto Arcângelo Maletta, Dona Jandira organizava suas memórias. Aos 64 anos, quando muitos já pensam em descanso, ela decidiu reescrever sua própria história e dar espaço a um sonho que parecia esquecido pelo tempo. Nunca imaginou que, décadas depois, seu nome estaria marcado na música mineira como um dos grandes símbolos de paixão e determinação.
Nascida em Maceió, viveu uma vida de dedicação à família e ao trabalho. Casou-se, teve filhos, tornou-se professora e, depois de muitos anos, se aposentou. A música, que sempre a acompanhou discretamente, parecia um capítulo distante, um talento guardado a sete chaves pela mãe, que temia os desafios da vida artística para uma mulher nordestina e negra. A infância foi embalada por acordes de piano e acordeom, instrumentos que sua mãe dominava com maestria. Pequenas apresentações em família e na igreja foram os primeiros momentos em que Jandira percebeu que sua voz carregava algo especial. Mas a vida seguiu outros rumos e a música permaneceu ali, silenciosa.
A mudança para Ouro Branco trouxe um novo começo. Em um vilarejo tranquilo chamado Itatiaia, Dona Jandira encontrou um ambiente acolhedor e uma nova maneira de se expressar. O destino deu um empurrão quando, despretensiosamente, foi flagrada cantarolando por uma funcionária da prefeitura. O convite veio rápido: desenvolver um projeto musical na comunidade. A princípio, hesitou. Não se via como cantora profissional, apenas alguém que amava a música. Mas aceitou o desafio e, em pouco tempo, estava à frente do coral infantojuvenil Os Bem-Te-Vis.
A necessidade de se profissionalizar a levou até a Ordem dos Músicos, onde realizou o exame que mudaria sua vida. Quando abriu a boca para cantar, a surpresa foi geral. Entre os avaliadores, o músico José Dias ficou impressionado. A força da interpretação, a emoção genuína, o timbre carregado de história e experiência. No dia seguinte, o convite para um projeto musical já estava feito. Sem planejamentos elaborados ou grandes expectativas, entraram no estúdio e registraram as primeiras canções. Entre boleros e sambas imortalizados por grandes vozes, Dona Jandira deixou sua marca. O público não demorou a perceber que algo diferente estava acontecendo.
A estreia nos palcos aconteceu em um pequeno bar da Savassi, em Belo Horizonte. No Vinil Cultura Bar, pela primeira vez, apresentou-se ao público de maneira oficial. A partir daí, a trajetória tomou um rumo inesperado. Foram centenas de shows, apresentações em grandes festivais e uma turnê que passou por várias cidades brasileiras, além de uma participação em Portugal. Nos palcos, sua presença era magnética. O público, majoritariamente jovem, se encantava com a vitalidade daquela “jovem senhora”, como gostava de se chamar. Era como se o tempo não a tocasse, como se, ao cantar, ela voltasse a ter trinta e poucos anos.
A carreira que começou de forma tardia foi uma grande resposta para aqueles que acreditam que há idade para sonhar. Jandira conquistou respeito e admiração, provando que talento não tem prazo de validade. Quando interpretava clássicos do samba, da MPB e do bolero, fazia com que cada verso carregasse o peso das emoções que acumulou ao longo da vida. Suas apresentações eram mais do que shows, eram testemunhos de superação, entrega e amor pela música.
Dona Jandira se despediu em 2024, aos 85 anos, deixando um legado que transcende o tempo. Sua voz ainda ecoa nos ouvidos daqueles que tiveram o privilégio de ouvi-la ao vivo, e suas gravações continuam a emocionar novos admiradores. O tempo pode ter passado, mas sua música segue viva, lembrando a todos que nunca é tarde para se reinventar.
Uma referência inesmitável para todos os setores da arte! Salve, saudosa dona Jandira!
Voz inigualavel…artista completa..está fazendo muita falta…
Em Bh é lembrada pelos artistas em seus shows…