Um dragão vive na minha garagem!

Imagem: Catarina Bessell

Este texto é o aprofundamento do assunto abordado no vídeo “TEM UM DRAGÃO NA MINHA GARAGEM!“, publicado em meu canal de divulgação científica Um Pingo de Ciência. Assista ao vídeo aqui: https://www.youtube.com/shorts/2hAw5rr9-Dg

– Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive ali na minha garagem! – eu digo para você, empolgado.

– Não é possível! Essa eu quero ver! – você responde, arregalando os olhos, maravilhado por finalmente ter a chance de testemunhar algo que sempre achou existir só no mundo da fantasia.

– Olha ele ali! Ah, mas eu esqueci de te falar que ele é invisível! – eu digo, apontando para um canto vazio.

– Uai! Então bora jogar farinha no chão pra ver as pegadas dele – você sugere, direto ao ponto.

– Ótima ideia! Mas esse dragão flutua no ar – retruco, confiante.

– Hum… Entendi. Então bora usar um sensor infravermelho pra medir a temperatura do fogo dele – você insiste, uma fagulha de desânimo na voz.

– Gostei dessa ideia! Mas o fogo invisível dele não emite calor também – rebato, impassível.

– Ah… Então bora jogar tinta nele pra ver se ele aparece como o homem invisível da turma do Chaves (que não aparece…) – você diz, desanimado.

– Essa ideia foi a melhor! Mas também não te contei que esse dragão não tem corpo, então a tinta não vai acertar nele – admito, triunfante.

– Ué… – você rebate, trocando o desânimo por seriedade. – Se esse dragão é invisível, não tem corpo, vive flutuando e cospe fogo que não solta calor, que diferença ele tem de um dragão que não existe?

– Eh… – você hesita por um instante, antes de sair pela tangente: – Quarenta e três?

Essa cena parece saída de uma comédia, mas é um experimento mental famoso, criado pelo astrônomo e divulgador científico Carl Sagan (1934-1996) e abordado no capítulo 10 de seu livro “O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro”, publicado em 1995. O “dragão na garagem” mostra como alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias. Se não há como testar, provar ou refutar, estamos diante de uma crença, não de um fato.

No diálogo, eu não apresento nenhuma prova; apenas peço que você confie em minha palavra e acredite estar vendo o tal dragão que existe na minha garagem. E é aqui que a fábula deixa de ser engraçada e passa a ser urgente. Quantos “dragões invisíveis” são apresentados a nós todos os dias? Curas milagrosas, poderes sobrenaturais, tecnologias revolucionárias sem base científica, promessas políticas que só existem no discurso, teorias conspiratórias que se alimentam justamente daquilo que não pode ser verificado, fórmulas econômicas milagrosas que prometem prosperidade instantânea, plataformas de apostas online que vendem ilusão de renda rápida etc.

Como Carl Sagan escreveu, “a mágica requer cooperação tácita entre o público e o mágico – um abandono do ceticismo, ou o que é às vezes descrito como a suspensão voluntária da descrença“. Isso implica que, para compreender a mágica, para expor o truque, nós, o público, devemos parar de colaborar com o mágico, ou seja, ativar nosso senso crítico e buscar evidências reais antes de acreditar em suas promessas extraordinárias. 

Aceitar um dragão invisível sem questionamento pode parecer inofensivo, até o dia em que ele começa a influenciar suas decisões políticas, seus investimentos, suas escolhas de consumo e o cuidado com sua saúde. O questionamento é simples diante de alegações milagrosas como as relatadas: será que posso realmente encontrar provas de que isto à minha frente é real? Se a resposta for não, talvez você esteja apenas olhando para uma garagem vazia.

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