Em certas passagens do Evangelho, é aconselhado agir com serenidade. Em Mateus 6:28-30, Jesus diz “observai os lírios do campo”, afirma que nem mesmo Salomão (rei rico e símbolo máximo de prosperidade) se vestiu como eles e conclui que, se Deus veste até a erva que logo perece, quanto mais vestirá os homens, a quem chama de “homens de pouca fé” por se angustiarem com o vestuário. A mensagem é clara: confiar. Confiar que a existência não se reduz à angústia pelo amanhã. Confiar que há cuidado onde o olhar humano só percebe escassez.
²⁸ E, quanto ao vestuário, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;
²⁹ E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
³⁰ Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé?
Mateus 6:28–30
O Deus apresentado no Novo Testamento (onde a passagem supracitada está inserida) é ligado, por tradição, ao Deus do Antigo Testamento, aquele que age no registro da violência (guerra, sacrifício humano, sacrifício de animais, assassinato, estupro, genocídio e pena capital), da prova moral (testes da fidelidade humana diante de exigências divinas, como as provações de Abraão e as aflições de Jó) e do juízo (o veredito moral de Deus, com consequências individuais ou coletivas, levando à separação entre eleitos e condenados). Digno do dilema do super-herói, é esse Deus que afirma criar “a luz e as trevas, a paz e o mal” (Is 45:7) e que atravessa a narrativa bíblica associado a figuras de poder, como Salomão, não apenas visto como sábio, mas como rei rico, figura do poder, do luxo e do status social.
Antes mesmo de falar do vestuário, porém, em versículos anteriores do mesmo capítulo do evangelho, a ansiedade é associada às necessidades mais básicas da sobrevivência. Em Mateus 6:25-26, Jesus menciona explicitamente o medo de não ter o que comer ou beber e usa as aves do céu como metáfora do cuidado divino. A progressão é reveladora: primeiro o estômago, depois a roupa. A angústia nasce na sobrevivência antes de alcançar o plano simbólico da aparência e do pertencimento social.
²⁵ Por isso vos digo: Não andeis ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?
²⁶ Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?
Mateus 6:25-26
A pregação de Jesus nos evangelhos está atravessada pela expectativa do Reino de Deus como realidade próxima. Expressões como “o Reino de Deus está próximo” (Mc 1:15) e afirmações de que alguns dos que o ouviam não morreriam antes de ver a manifestação desse Reino (Mt 16:28; Mc 9:1; Mt 24:34) indicam um senso de urgência. A serenidade diante da fome e do vestuário não era apenas um exercício espiritual abstrato, mas parte de uma ética moldada por um tempo percebido como breve. Se o Reino estava às portas, a ansiedade pelo amanhã perdia parte de sua centralidade.
Paulo e os primeiros cristãos escreveram imersos nessa expectativa escatológica. A aproximação da volta de Cristo não era uma metáfora, mas uma possibilidade concreta. Com esse horizonte em mente, a vida presente de então era pensada como intervalo breve e a obra (aquilo que Paulo compreendia como sua missão apostólica de anunciar o evangelho), como algo urgente. A tensão expressa por Paulo, entre permanecer na carne para cumprir a missão e desejar morrer para estar com Cristo (Fi 1:21–24), só faz pleno sentido num mundo que parecia à beira do fim.
²¹ Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.
²² Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher.
²³ Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.
²⁴ Mas julgo mais necessário, por amor de vós, ficar na carne.
Filipenses 1:21–24
O tempo, no entanto, passou. Vieram outros homens, outros séculos, outras gerações. E com eles vieram também, repetidas vezes, anúncios de que o fim estava próximo. A obra continuou sendo proclamada; a fome, também. A promessa permaneceu e a falta de roupa e de moradia também. A crença no apocalipticismo, a expectativa de uma intervenção definitiva e iminente que daria fim ao mundo, reapareceu como fenômeno recorrente em diferentes tradições religiosas e contextos históricos. Essa percepção de colapso iminente reaparece sempre que crises se acumulam.
Na Idade Média, epidemias, guerras e fomes foram amplamente interpretadas como prenúncios do Juízo Final. A própria organização do tempo histórico era pensada em função de um fim esperado, com esquemas como o das Seis Épocas do Mundo estruturando passado, presente e futuro. Textos apocalípticos difundidos, como o Apocalipse de Pseudo-Metódio e o Apocalipse de Pseudo-Atanásio, associavam crises concretas a narrativas escatológicas e moldavam o imaginário religioso. No século XIII, Roger Bacon (1220-1292) integrou as invasões mongóis ao seu horizonte apocalíptico, interpretando-as como sinais da aproximação do Anticristo e da consumação escatológica da história, leitura que atravessava não apenas sua teologia, mas também seu projeto científico (MATUS, 2012). No século XVII, a sucessão da Grande Praga de Londres e do Grande Incêndio de Londres alimentou leituras apocalípticas e perseguições a supostos culpados morais.
Mesmo após a Idade Média, essa lógica não desapareceu. Ao longo dos séculos modernos e contemporâneos, inúmeros grupos continuaram a anunciar datas específicas para o fim do mundo, um fenômeno documentado até os dias atuais. No século XX, a linguagem do apocalipse também foi secularizada: o chamado Relógio do Juízo Final, elaborado pelo Bulletin of the Atomic Scientists (“Boletim dos Cientistas Atômicos”, em tradução livre) passou a simbolizar a proximidade de catástrofes globais associadas a guerras nucleares, colapso ambiental e riscos tecnológicos.
O século XX, particularmente, repetiu o padrão em escala ainda maior do que a dos séculos anteriores (e talvez tenha sido isso que levou à criação do supracitado Relógio do Juízo Final), ostentando pandemias globais, duas guerras mundiais, conflitos regionais contínuos e crises humanitárias reforçaram a sensação recorrente de colapso iminente. Ainda assim, o mundo seguiu. O que muda não é o fim, mas a narrativa: cada geração tende a ler suas próprias tragédias como únicas, definitivas e finais, produzindo ansiedade não porque o mundo esteja acabando, mas porque sempre esteve em crise.
O fim nunca veio, mas a espera sempre esteve por aqui.
O cristianismo, assim como muitas outras tradições religiosas, atravessou séculos e milênios e em todas elas persistiram as mesmas necessidades elementares: comer, beber, vestir, dormir com segurança sob um teto. Quase um terço da população mundial se declara cristã, segundo levantamentos do Pew Research Center (HACKETT et al., 2025), somando cerca de 2,3 bilhões de pessoas no início da década de 2020. Esse número é coincidentemente comparável (nota: o que não significa estritamente que todos sejam cristãos) à escala da insegurança alimentar global, que atinge cerca de 2,3 bilhões de pessoas sob algum grau de insegurança alimentar no mundo, enquanto um número entre cerca de 691 e 783 milhões de pessoas enfrentam subalimentação crônica (FAO, 2025). Ao mesmo tempo, cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivem em favelas e assentamentos informais, frequentemente sem acesso adequado a moradia durável, água potável, saneamento e infraestrutura básica (UN-Habitat, 2024).
No Brasil, país de maioria cristã (MORI, 2023), o quadro não é diferente. Dados do II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Rede PENSSAN, 2022) indicam que, em 2022, 125,2 milhões de brasileiros (cerca de 58,7% da população) viviam em situação de insegurança alimentar, dos quais mais de 33 milhões (cerca de 15,5% da população) enfrentavam fome (insegurança alimentar grave), quadro que atingia de forma desproporcional as regiões Norte e Nordeste, domicílios rurais, famílias chefiadas por mulheres e pessoas negras. O estudo também evidencia a sobreposição entre fome e insegurança hídrica, além da precarização das condições de vida. Embora o país tenha recentemente saído do Mapa da Fome da FAO/ONU ao reduzir a prevalência de subnutrição crônica abaixo de 2,5% da população (MDS, 2025), persistem desigualdades profundas no acesso à alimentação adequada, que se sobrepõem a fatores como renda, raça, gênero e região. O déficit habitacional estimado em 2022, por sua vez, alcançava 6,2 milhões de domicílios (8,3% do total do país), sendo o principal componente o ônus excessivo com aluguel urbano, seguido por habitações precárias e coabitação, com forte concentração entre famílias de menor renda, revelando a persistência de privações estruturais no acesso à moradia adequada (Fundação João Pinheiro, 2024).
A erradicação da fome não é uma impossibilidade estrutural do mundo, mas uma questão de decisão política e coordenação econômica. Relatórios recentes de organismos internacionais estimam que acabar com a fome até 2030 exigiria a mobilização adicional de algumas centenas de bilhões de dólares ao longo da década, valores que variam, segundo diferentes modelos, entre aproximadamente 330 e 540 bilhões de dólares, dependendo do conjunto de políticas adotadas (UNIDO–FAO, 2024). Trata-se de montantes elevados, mas que representam uma minúscula fração do PIB global, que atingiu quase 111 trilhões de dólares (World Bank, 2024) em 2024, e estão muito abaixo da capacidade financeira agregada do sistema internacional.
Quando, na tradição da escatologia cristã, se afirma que a fome, a maldade e a miséria (vistos como expressões do sofrimento inerente à condição queda da humanidade) “nunca deixarão de existir” até a volta de Cristo, desloca-se o problema da ética para a escatologia. A providência deixa de ser resposta e passa a ser adiamento. O sofrimento torna-se provisório apenas no discurso, porque, na vida concreta, ele é permanente. O que está em questão aqui não é a validade da fé, mas as consequências éticas de uma esperança permanentemente deslocada para o futuro.
Essa lógica fazia sentido num horizonte como o de Paulo, em que “viver é Cristo e morrer é ganho” soava razoável diante de um fim esperado como próximo. Reconhecer esse contexto não é desautorizá-lo, mas compreender seus limites quando transposto para um tempo que se prolongou muito além do esperado. Quando a espera se estende por séculos, a esperança deixa de consolar e passa a suspender responsabilidades. A salvação é prometida para depois; a fome, o frio e o desabrigo continuam agora.
A tradição cristã sustenta que a plenitude se realiza no Paraíso, não na Terra (Fp 3:20; Hb 13:24). A ideia pode consolar diante do sofrimento inevitável, mas ninguém vive como se a vida fosse descartável. O apego à existência revela que o agora importa. Se o melhor está sempre depois, o que fazemos com o presente? A esperança do céu não elimina a exigência concreta de ter o que comer, vestir e onde se abrigar.
Há, nesse intervalo entre a promessa de plenitude no Paraíso e a persistência da precariedade na Terra, uma dor mais profunda do que a simples privação: a dor de esperar e não alcançar aquilo que é necessário para viver. Em O mito de Sísifo (2019), Albert Camus (1913-1960) define o absurdo como o confronto entre a necessidade humana de sentido e a indiferença do mundo. O absurdo nasce quando a promessa não encontra confirmação na experiência. Não é a ausência de esperança que fere, mas a repetição da espera. Nesse sentido, quando a providência é anunciada e a miséria persiste, a tensão deixa de ser apenas espiritual e se torna estrutural: o conflito entre promessa e realidade produz não incredulidade, mas angústia. Quando o sentido é sempre adiado, o sofrimento não desaparece, mas se intensifica no presente. Vejo o arremate dessa questão quando Camus escreve, em A queda (2007): “Não espere pelo Juízo Final. Ele acontece todos os dias.” O “Juízo Final”, aqui, deixa de ser evento escatológico distante e passa a ser algo cotidiano, manifestando-se na forma como sociedades convivem diariamente com a miséria evitável enquanto projetam a redenção para um futuro indefinido.
Essa dor não é apenas existencial, mas também ética e social. Em Desenvolvimento como liberdade (2021), Amartya Sen demonstra que a fome e a miséria não decorrem da falta inevitável de recursos, mas da negação de capacidades básicas que permitiriam às pessoas viver com dignidade. Onde faltam alimento, vestuário e abrigo, falta liberdade concreta. A ansiedade, nesse sentido, não é falha individual nem ausência de fé, mas o sintoma de um mundo que adia a dignidade enquanto promete redenção.
Aqui, tocamos finalmente no ponto de que toda metáfora tem seus limites. E o limite dos lírios e das aves é simples: eles não vivem em sociedade. Os lírios e as aves não conhecem o desemprego, não enfrentam despejo, não dependem de salário, não vestem roupas que determinem aceitação ou exclusão social. Os humanos, sim. Esses últimos vivem sob exigências simbólicas e concretas: trabalhar, aparentar, consumir, pagar, sobreviver. A ansiedade nasce menos da falta de fé e mais da experiência cotidiana da precariedade. Em outras palavras, a ansiedade não é um desvio espiritual, mas uma resposta racional à instabilidade material que persiste.
No fim, talvez o problema não seja por que os homens se preocupam com o vestuário, mas por que ainda vivemos em sociedades em que isso é motivo legítimo de angústia. Entre a providência proclamada e a dignidade negada, a fé continua abundante; o pão, nem sempre.
Se a esperança é sempre futura, quem responde hoje pela fome, pelo frio (e pelo status social ditado pelas vestimentas) e pelo desabrigo das pessoas no presente? E quem se beneficia quando essa resposta é constantemente adiada?
Ouro Branco/MG, 15 de fevereiro de 2026.
Wiler A. do Carmo Jr.
Em breve, uma nova coluna da série “Crônicas dos aguardadores da providência divina”.
Leia minhas outras colunas.
Esta coluna também foi publicada no site Um Pingo de Ciência. Leia aqui.
Fontes (em construção, com base nos links citados em toda coluna)
BÍBLIA. Bíblia Sagrada – Tradução Almeida Corrigida Fiel. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf. Acesso em: 12 fev. 2026.
ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Apocalypticism. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/apocalypticism. Acesso em: 12 fev. 2026.
WIKIPÉDIA. Seis Épocas do Mundo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Seis_%C3%A9pocas_do_mundo. Acesso em: 13 fev. 2026.
WIKIPÉDIA. Apocalipse de Pseudo-Metódio. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Apocalipse_de_Pseudo-Metódio. Acesso em: 14 fev. 2026.
WIKIPEDIA. Apocalypse of Pseudo-Athanasius. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Apocalypse_of_Pseudo-Athanasius. Acesso em: 14 fev. 2026.
WIKIPÉDIA. Lista de datas previstas para eventos apocalípticos. Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_datas_previstas_para_eventos_apocal%C3%ADpticos. Acesso em: 13 fev. 2026.
BULLETIN OF THE ATOMIC SCIENTISTS. Doomsday Clock. Disponível em: https://thebulletin.org/doomsday-clock/. Acesso em: 13 fev. 2026.
HACKETT, C. et al. How the Global Religious Landscape Changed from 2010 to 2020. Pew Research Center, 09 jun. 2025. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2025/06/09/how-the-global-religious-landscape-changed-from-2010-to-2020/. Acesso em: 13 fev. 2026.
FAO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2025. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/items/ea9cebff-306c-49b7-8865-2aef3bfd25e2. Acesso em: 13 fev. 2026.
UN-HABITAT. World Cities Report 2024. Disponível em: https://unhabitat.org/sites/default/files/2024/11/wcr2024_-_full_report.pdf. Acesso em: 13 fev. 2026.
REDE PENSSAN. Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Rede Penssan, 2022. Disponível em: https://redepenssan.org.br/wp-content/uploads/2026/01/Relatorio-II-VIGISAN-2022_compressed.pdf. Acesso em: 14 fev. 2026.
FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Déficit habitacional no Brasil. Fundação João Pinheiro, 2024. Disponível em:https://drive.google.com/file/d/13FL-MVsULmFMjkQb1nQsYzO2JVhLQvwz/view. Acesso em: 14 fev. 2026.
MATUS, Z. Reconsidering Roger Bacon’s Apocalypticism in Light of His Alchemical and Scientific Thought. Harvard Theological Review, Cambridge, v. 105, n. 2, p. 189–222, abr. 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0017816012000491. Acesso em: 14 fev. 2026.




